domingo, 5 de janeiro de 2014

Poemas para a minha Mãe



Mãe, se eu fosse pintor,
E soubesse pintar,
Pintava-te numa folha de papel.
Utilizaria espátulas, penas, dedos,
E as cores mais belas.
E macios pincéis,
Para não ferir a tua pele.

O teu retrato seria leve como o vento,
E fluente como a luz.
E os teus olhos, como eram,
Ficariam lindos, cheios de amor.

Seria um retrato que os Mestres teriam pena de não ter pintado,
E os vindouros não saberiam fazer igual.
Serias tu, minha mãe, como eras, tal e qual.

E não lhe punha qualquer moldura,
Para não o adulterar.
E depois de pronto,
Pendurava-o no meu peito,
Junto a ti, no seu lugar.

…E se eu fosse poeta?


Ah!, se eu fosse poeta,
Minha mãe,
E soubesse fazer um poema,
Escrevia-o para ti.
Seria um poema cheio de cor e melodia,
Onde cantaria como és linda,
E quanto gosto de ti.

Seria o poema mais belo
À face da Terra e no Céu.
E depois, encostado ao teu coração,
Recitava-to em voz baixa,
Em solene harmonia.
E pronto, dava-to, era teu.
Era a minha oração. 



(Publicado no livro "Passagens e Afectos - Tartaruga)




A Hora da Inocência

Diz-me a alma, e é minha convicção,
Que fui concebido em campo aberto.
No compasso duma seara a ondular,
Num planalto, sobranceiro ao vale,
Na luz contemplativa da montanha.
Onde pulsavam águas cristalinas,
Para os namorados verem o amor
Reflectido, nos impulsos da paixão.

E que foi no instante em que junto à Fonte,
Sobre uma giesta florida,
Um anjo cantava, de braços abertos,
Odes de louvor ao surgir da vida.
Enquanto em baixo o Vale,
Abraçado ao rio a caminho do mar,
Adormecia ao som de papoilas encarnadas,
E de rãs a coaxar, em nenúfares risonhos,
Numa aragem do vento deleitado
A beijar flores, de pétalas viçosas,
Entre odores e sonhos.

E que foi aí, nesse Éden,
Que travei a primeira batalha
E venci o âmago da minha mãe.
Ao som de anjos a cantar,
Junto de um rio, filho do mar.
Num sublime instante de quimera,
No alvor da Primavera.


(Publicado no livro "Passagens e Afectos" - Tartaruga)







Os Moinhos

Pedras cantantes no rio,
Embaladas de mansinho.
Ao compasso do moleiro,
Que as tratava com carinho.

Adornos de bucólicas paisagens,
Com cantar melódico repousante.
Construção de sábios Romanos,
No Vale de Moinhos distante.

Onde homens, burros e pedras,
No espaço mítico do pão,
Confessavam ao vento Norte,
Os medos da tempestade,
No meio de uma oração.

Estão agora agonizantes,
À espera de compaixão!



(Publicado no livro "O Clamor dos Campos - Edições Colibri)

sábado, 4 de janeiro de 2014

Outra Mãe Igual à Minha



Mãe, hoje vi uma mãe preta
Com um filho ao colo,
A quem dava a teta,
Com gestos como tu fazias.
E vi, claramente, que o leite que lhe dava
Era branco como o que, em criança, eu mamava.

Depois de mamar, com as mãos o ergueu.
E ele sorriu e arrotou, como fazia eu.

Em seguida, esfregou os olhos com as mãozinhas,
E rolou-lhe na face uma gota de água cristalina,
Da cor das lágrimas minhas.
A mãe aconchegou-o, cuidadosamente, como tu me fazias, e sereno, como um anjo, adormeceu,
Como no teu colo adormecia eu.

Ó Mãe,
Como foi lindo o amor que vi,
Nesta outra mãe,
Que me fez lembrar de ti.


(Publicado no livro"O Clamor dos Campos" -  Edições Colibri)



A cozinha da minha infância




Era um espaço amplo de paredes nuas,
Matizadas pelo fumo das estevas com o passar dos anos.
Tinha ao lado o forno de cozer o pão centeio,
E a torreira, separada por escanos,
Que serviam de mesa e repouso, de permeio.
Ao fundo dois tições de carrasco no trasfogueiro,
Encimados pelas varas de fumeiro,
E potes de ferro, com três pés, corroídos pela idade.
Ao lado, sobre o escano, a escrinha com pão centeio.
E guarda-loiças com cântaros de barro,
Completavam o recheio.

Era um espaço mítico onde se chorava a morte
E festejava a vida.
Onde à mesa se agradecia ao Senhor o abençoado pão,
E se escutavam os mais velhos, com dobrada atenção.
Onde, à volta da fogueira,
Três gerações em amena cavaqueira,
Passavam os serões, nas noites frias de Inverno,
À luz da candeia.

Assim eram as vivências na minha aldeia!


(Publicado no livro "O Clamor dos Campos" - Edições Colibri)