domingo, 5 de janeiro de 2014

O Meu Carro de Ladeira



Eu fiz um carro,
De ladeira,
Com quatro tabuinhas,
Arrancadas da capoeira.

E pus-lhe um volante
E duas rodas e um eixo,
Tosco,
De pau de amieiro,
À maneira de arrocho.

As rodas, de cortiça,
Não chiavam.
E os pedais e o travão
Eram os pés,
Fincados no chão.

Para baixo,
Trazia-me ele.
Para cima,
Levava-o eu.
Como o tempo era nosso,
Quando ele tombava
Caía eu.

Era assim,
O meu carro de ladeira,
Sem travões nem direcção.
Mas que servia, perfeito,
À minha admiração.


(Publicado no livro "Passagens e Afectos" - Tartaruga)





Apresentação do Mar



 Era Inverno, tudo alagado.
Avô, neto e cavalo, o trio.
A chuva tinha amainado,
No vale, furioso, passava o rio.

Águas de barro, tumultuosas,
Apertadas no granito, furiosas,
Tinham pressa de chegar,
Ali ao Douro, mais lá, ao mar.

Vinham de Espanha,
Cavalgando rochas no passar.
E em frente da montanha:
- Olha, meu filho, é assim o mar!

O Mar!
- O que é o mar, avô?
- Nunca o vi, meu filho,
  Mas deve ser grande,
  Como aquele rio!
- E para onde vai o mar, avô?
- Para lá. Para além do fim do mundo.
- E é longe, avô, podemos ir ver?
- Deve ser, deve ser.
- Levas-me lá, ao fim do mundo?
  Vamos tu e eu, e o cavalo...
- Não sei o caminho, meu filho,
  Nem como procurá-lo.
- Seguimos o sol, até o encontrar...
- Já estou velho, meu filho,
  É tempo de ficar.

Mas vai tu.
Vai tu, saber do mar.
E quando o encontrares,
Vem por mim, pro abraçar.


(Publicado no livro " Passagens e Afectos" - Tartaruga)







Poemas para a minha Mãe



Mãe, se eu fosse pintor,
E soubesse pintar,
Pintava-te numa folha de papel.
Utilizaria espátulas, penas, dedos,
E as cores mais belas.
E macios pincéis,
Para não ferir a tua pele.

O teu retrato seria leve como o vento,
E fluente como a luz.
E os teus olhos, como eram,
Ficariam lindos, cheios de amor.

Seria um retrato que os Mestres teriam pena de não ter pintado,
E os vindouros não saberiam fazer igual.
Serias tu, minha mãe, como eras, tal e qual.

E não lhe punha qualquer moldura,
Para não o adulterar.
E depois de pronto,
Pendurava-o no meu peito,
Junto a ti, no seu lugar.

…E se eu fosse poeta?


Ah!, se eu fosse poeta,
Minha mãe,
E soubesse fazer um poema,
Escrevia-o para ti.
Seria um poema cheio de cor e melodia,
Onde cantaria como és linda,
E quanto gosto de ti.

Seria o poema mais belo
À face da Terra e no Céu.
E depois, encostado ao teu coração,
Recitava-to em voz baixa,
Em solene harmonia.
E pronto, dava-to, era teu.
Era a minha oração. 



(Publicado no livro "Passagens e Afectos - Tartaruga)




A Hora da Inocência

Diz-me a alma, e é minha convicção,
Que fui concebido em campo aberto.
No compasso duma seara a ondular,
Num planalto, sobranceiro ao vale,
Na luz contemplativa da montanha.
Onde pulsavam águas cristalinas,
Para os namorados verem o amor
Reflectido, nos impulsos da paixão.

E que foi no instante em que junto à Fonte,
Sobre uma giesta florida,
Um anjo cantava, de braços abertos,
Odes de louvor ao surgir da vida.
Enquanto em baixo o Vale,
Abraçado ao rio a caminho do mar,
Adormecia ao som de papoilas encarnadas,
E de rãs a coaxar, em nenúfares risonhos,
Numa aragem do vento deleitado
A beijar flores, de pétalas viçosas,
Entre odores e sonhos.

E que foi aí, nesse Éden,
Que travei a primeira batalha
E venci o âmago da minha mãe.
Ao som de anjos a cantar,
Junto de um rio, filho do mar.
Num sublime instante de quimera,
No alvor da Primavera.


(Publicado no livro "Passagens e Afectos" - Tartaruga)







Os Moinhos

Pedras cantantes no rio,
Embaladas de mansinho.
Ao compasso do moleiro,
Que as tratava com carinho.

Adornos de bucólicas paisagens,
Com cantar melódico repousante.
Construção de sábios Romanos,
No Vale de Moinhos distante.

Onde homens, burros e pedras,
No espaço mítico do pão,
Confessavam ao vento Norte,
Os medos da tempestade,
No meio de uma oração.

Estão agora agonizantes,
À espera de compaixão!



(Publicado no livro "O Clamor dos Campos - Edições Colibri)