quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Homem da Lua


                           A horta, regada que dava gosto.
                           O cavalo, refeito no lameiro.
                           No céu, lua cheia, luar de Agosto.
                           À porta, sentados tu e eu ao paleio.

                           A Lua convidava à sua história.
                           Noite quente, céu aluarado.
                           A paz absoluta, o sossego na alma.
                           Em baixo, o Sabor adormecia calado.
                           Na nória, o som das últimas gotas
                           De água a cair.
                           Ao lado, o grilo cantava.

                           E na ponta da língua, uma pergunta a sair:
                           - Avô, porquê agora parece dia,
                             e em cima de nós a lua é redondinha?
                           - Foi Deus, meu filho. Que Ele seja louvado.
                           - E aquilo, no meio dela, é uma árvore?
                           - Não. É um homem, que por não ir à missa
                             está lá condenado.
                           - O que é um homem condenado, avô?
                             E não tem pernas nem braços?
                           - Um homem condenado, meu filho,
                             é aquele desgraçado.
                           - Mas se ele de lá sair, e for à missa, dás-lhe de comer?
                           - Não é capaz de sair.
                             Só sai quando o mundo morrer.                                                     
                           - E quando morre o mundo, avô?
                           - Quando ele acabar o seu degredo.                                                    
                           - O que é o degredo, avô. Fazes ideia?
                           - O degredo, meu filho, é o homem ter medo,
                              Inveja e preguiça.                                                  
                           - Avô, o homem da Lua tem uma candeia?
                           - Olha meu filho, ele é velhinho de barbas brancas...

                           - Avô, vamos dormir.
                             Leva-me à missa,
                             Eu não quero ir para a Lua. 

                           
                            (Livro: "Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Duas Romãs Vermelhas

De passo leve, e sorriso de menina,
Passeavas o encanto da tua juventude,
No esplendor da inocência cristalina.

E os teus seios virgens, cheios de virtude,
Faziam-me lembrar duas romãs coradas
A saltitar em salvas de prata, cinzeladas,
Alheios à cobiça de olhares fortuitos
E de mãos ávidas de acariciar teus frutos.

Mas tu passavas e voltavas a passar,
Na fogosidade da mocidade desprendida,
Sem te dares ao cuidado de me olhar,
Quando te pavoneavas pela avenida,
De sapatos leves no pé, a dar a dar,
E gestos graciosos da cintura,
Projectados no meu peito a palpitar.

E era assim, nessa graça desprendida,
Que os teus seios me faziam lembrar
Duas romãs vermelhas,
Numa taça de prata cinzelada, a saltitar!


( Publicado no livro: "Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora )



quinta-feira, 12 de junho de 2014

Dia de Portugal


 
Vens de longe e tens no peito o teu passado,
Cheio de lutas, missões, feitos e glória.
De quantos com bravura fizeram a tua História,
E agora repousam no teu chão sagrado.

Homens e mulheres, marinheiros e poetas,
Que zarparam de um rio para vencer o mar.
Em frágeis barcaças que o vento fez voar,
Num mundo desconhecido, de portas abertas,

Para dizerem a outras gentes, a outras raças,
Que traziam com eles não só a cruz de Cristo,
Mas também afiadas espadas nas barcaças.

Quando aportavam a outros portos, noutros cais,
Onde semearam genes e crenças de Portugal,
E agora jazem em ti veros heróis imortais


           10 de Junho de 2014

(Soneto do meu novo livro de poesia, a publicar em 2014)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Outro Dia de Portugal!


 
Disseram-me, que hoje
Ia ser o Dia de Portugal.
Levantei-me cedo, abri a janela,
E olhei em frente, para o pálido telhado,
E vi que o sol estava ausente,
E o dia triste e embaciado.

Então interroguei-me, ao ver o dia triste,
Como estava eu, tal qual:
Mas será que hoje é o dia do Portugal,
Que piedosos santos e bravos marinheiros
Construíram, com lágrimas de saudade e sal,
Quando partiram em frágeis barcos pioneiros,
Para abrirem caminhos no deserto mar,
Por esse mundo além, a marear?

Sim. Será este o dia do Portugal
Da porta escancarada e aberta,
Daquela madrugada triunfal,
Que nos cantou a poeta?

Do Portugal que nossos avós ousaram construir, dia a dia,
Com trabalho e equidade, em paz e liberdade,
Com a sua sábia sabedoria?

Ou será um Portugal outro,
Neste mundo avaro e louco,
Onde se mandam emigrar,
Os melhores de todos nós,
Como no tempo dos nossos avós?

Um Portugal maneirinho,
Desde o Algarve até ao Minho...

Um Portugal sem esperança e ambição,
De ombrear com qualquer outra nação,
Que tenha orgulho no seu povo secular?

Depois de tanta interrogação,
Triste e o coração dorido,
Abri novamente a minha janela.
E o que vi, através dela,
Foi andorinhas migrantes,
Vestidas de branco e luto,
A voarem rente ao chão,
Escorregadio e enxuto!

Enquanto lá longe, olhando para outro lado,
Alguém de peito medalhado,
Carregando mérito e valor,
Talvez não saiba, não,
Que há andorinhas vestidas de branco e luto,
Que rasam o chão da minha rua, escorregadio e enxuto,
Preparando a dolorosa emigração!

Ou quem sabe, se por sinal,
Há quem não conheça as andorinhas da minha rua.
Há quem não conheça Portugal!


      10 de Junho de 2013