segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pão por Deus



 
Eram duas crianças,
Como foram os filhos meus.
Bateram à minha porta,
Pediram o pão por Deus.

Traziam consigo outro pão,
Ao contrário de outros tantos.
E alimentavam uma chama,
No dia de Todos os Santos.

Numa época de descrença,
Neste mundo de aflitos,
É dos gestos das crianças,
Que brotam feitos bonitos.

Porque é sempre nas crianças,
Como foram os filhos meus,
Que habitam as esperanças,
Que haja sempre o pão de Deus.


   


   Publicado no Livro: "Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora









terça-feira, 21 de outubro de 2014

Amar de Novo a Terra


 
É urgente amar de novo a terra,
Dar-lhe alegria e pulsar.

É urgente o apelo às mãos
Que a amam, para que destruam as palavras:
Isolamento, abandono e solidão.

É urgente transformar palavras em espadas,
E as espadas em pão e rosas encarnadas.
Sentir de novo o riso das crianças,
Como espadas de alegria,
Em manhãs azuis de esperanças.

Acabar com o pesado silêncio que faz doer.

É muito urgente, enquanto é tempo, poder ficar,
Permanecer.


Morais, Abril de 2004

     Publicado no Livro: "O Clamor dos Campos" - Edições Colibri

Canção Para Uma Criança


 
A vaca mirava o rato,
E a burra uma toupeira.
E o cão mirava os quatro,
À entrada da lameira.

No freixo cantava a rola,
No ribeiro o rouxinol.
Cantavam ao desafio,
Qual deles era o melhor.

E a rã lá no charquinho,
Seu belo banho tomava.
E o sapo caladinho,
Só à noite é que cantava.

Eram todos muito amigos.
E gostavam de cantar,
Naqueles campos floridos,
A correr e a saltar.


     Publicado no Livro: "O Clamor dos Campos" - Edições Clibri