quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Era Ali o Meu Douro!



E depois, ali em frente, vejo um rio,
Abraçado por socalcos dourados,
E gente alegre, cantando ao desafio
Canções ancestrais,
Gravadas no peito de filhos e pais,
Que enchiam cestos com uvas alouradas
Pelo sol e o luar de Agosto,
Que adoçavam o céu com o seu mosto.
Esse néctar sagrado,
Que dá alegria ao deus Baco.

Era ali o meu Douro!
Com o seu rio selvagem, 
A serpentear,
A caminho do Mar.

Era aquela a minha Gente!
Gente que ouvia cantar em menino,
Quando no Verão subia, de coração quente,
A outros vales peregrinos,
Pelo calor do sol, de peito aberto,
Para ceifar o abençoado pão,
Esse maná, que Deus multiplicou no deserto.

E no vale, junto ao Rio de águas de prata,
Diante de tamanho encanto,
Entre a Régua e o Pinhão,
Ao som do pregão:
Olha a regueifa!
O comboio sete vezes saudou
O Reino Maravilhoso,
Que o Torga tão bem cantou.


   Livro: Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora


A árvore dos segredos



Sentávamo-nos à sombra da figueira,
Junto ao regato, eu e a minha mãe,
E falávamos de coisas várias.
Como, por exemplo, das serras e dos montes,
Dos rios e das fontes, do Céu e do Inferno,
Do bem e o mal, do Verão e do Inverno,
E de outras coisas, do dia-a-dia, na nossa casa.
Mas nunca falávamos da vida alheia!
Nunca. Esse tema, para nós, família,
Era assunto que não pairava na nossa ideia.
“Quem mora no convento, é que sabe o que vai lá dentro…”
“A vida das outras pessoas é com elas, não nos interessa…”
“Quem fala mal dos outros, de si ouve…”

Isto era, rigorosamente, verdade.
Mas da nossa família falávamos muito:
Da saúde dos meus avós maternos, seus pais;
Porque não fui para o Brasil com o meu padrinho;
Nem a estudar para o seminário, para ser padre;
Porque baptizava filhos de ciganos, 
E os pais lhe chamam comadre;
Como se semeavam as terras e lavravam os olivais;
Como seriam as estrelas, e outras coisas que tais...

E um dia estávamos sentados 
Debaixo da figueira, a conversar,
E veio um melro e comeu um figo.
Os figos também eram pretos, como o melro.
Eu quis enxotar o melro, mas a minha mãe não deixou,
E disse-me: não faças isso! 
O melro também tem filhos, como tenho eu,
E os figos foi Deus que no-los deu, de graça também...

Nunca esquecerei esta bela lição da minha mãe!

Livro "Memórias e Divagações" -  Poética Edições  



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Da minha janela oiço o Mar




Da minha janela oiço o mar,
Quando ele corre lento,
Para na areia se espraiar,
Ao ritmo ondulante do vento.

E como é bom ouvir o mar,
Quando ele chega à praia,
Numa noite serena de luar,
Quando o amor se ensaia…

Eu penso tanto no mar,
Que chego a imaginá-lo no céu!
Com anjinhos a remar,
Num barquinho de papel,
E gaivotas a voar sobre ele.

  Livro "Memórias e Divagações" - Poética Edições