quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Natal na minha infância, e os rebuçados do céu…



 Passam os anos, ficam as recordações. E recordar é bom. Com que saudades recordo os Natais passados em casa dos meus avós maternos e na dos meus pais. O Natal era, por excelência, a festa da Família. Embora houvesse casas onde as iguarias abundavam mais do que noutras. Porém, em todas se comia polvo e cantava “o Menino”.
A noite de Natal em casa dos meus avós era, pelo número de pessoas à mesa, diferente da casa dos meus pais. Lá havia pais, filhos, netos e criados, todos sentados à mesma mesa, a cear. Ceia constituída por batatas, rábanos, couve troncha, bacalhau e polvo, de meia cura, cozidos ao lume, nos potes de ferro, e regados com azeite e acompanhados com vinho, que os homens bebiam… E depois a criada Merência levava para a mesa, nas travessas de loiça de Sacavém…
Contudo, antes de se dar início à ceia o meu avô Luciano dava Graças a Deus, e no fim comiam-se as filhós e as rabanadas. Em seguida, iam todos sentar-se à volta da lareira. Nos enormes escanos de madeira, escurecidos pelo fumo e pelos anos, e cantavam “o” Menino: “Chora, chora, meu Menino,/ que a mãezinha logo vem/ foi lavar os cueirinhos/ à fontinha de Belém!...”
Isto durava até de madrugada, mas eu, sentado no colo do meu avô, cedo adormecia, e a minha avó Merência levava-me à cama, e findava, para mim, a noite de Natal, sem brinquedos nem sapatinho na chaminé... 
Este ritual, de cantar canções de Natal à lareira, durava até ao dia 6 de Janeiro, dia de Reis. E, nessa noite, as canções já eram diferentes: “já os três reis são chegados/ à porta do Oriente/visitar o Deus Menino/ nosso Deus Omnipotente/”…
Era assim, que se passava a quadra natalícia na aldeia de Talhas, no século passado.

Mas as minhas recordações do Natal, a partir dos nove anos, em casa dos meus pais, são diferentes. Aqui, recordo-me de o meu pai ir ao “soto” do Choupina comprar o bacalhau e o polvo, de meia cura. Que chegava à aldeia dentro de cestos de cana, e tinha um cheiro desagradável, até que a minha mãe o passava por água e batia com ele numa pedra, para perder areia, e depois o cozia e ficava macio e saboroso...
O polvo, o congro e o bacalhau eram as principais iguarias que iam para a mesa, na ceia de Natal, acompanhadas com batatas, rábanos, couves tronchas, pão e vinho. E, no fim da ceia, comíamos polvo frito, passado por ovo, e rabanadas e filhós.
Rabanadas e filhós, que a minha mãe tinha feito durante o dia. Como me recordo, ainda, de a ver atarefada a amassá-las e a fritá-las em azeite, ao lume, e eu a pôr o açúcar por cima delas, enquanto comia a primeira…
Pelas vinte horas ceávamos à lareira, e depois cantávamos as mesmas canções que se cantavam em casa dos meus avós. À meia-noite íamos à missa do galo e a beijar o Menino, como se dizia. Chegados a casa, íamo-nos deitar.
Em Morais, a minha aldeia, também não havia prendas nem sapatos na chaminé, As únicas prendas que havia eram rebuçados para as crianças. Os chamados rebuçados do céu… Isto, até que os filhos não davam pela “marosca”. Os rebuçados compravam-se em Macedo, para serem diferentes dos que se vendiam no “soto” da aldeia, e os pais deixavam-nos ficar no quarto deles, depois da missa do Galo, e diziam-lhes que eram os rebuçados do céu, que o Menino Jesus lhes tinha trazido por se portarem bem… Eles, de manhã, encontravam-nos e iam a correr dar um ao pai e outro à mãe: tomem lá um rebuçado do céu! Eu portei-me bem, se não o Menino Jesus não mos tinha trazido…Isto durava até que os filhos apanhavam os pais no quarto, a deixar os rebuçados, e lhes diziam: “ó meu pai, então o senhor é que é o Menino Jesus!...” Os pais, embaraçados, diziam-lhes a verdade, e terminava assim o sonho mais lindo das crianças da minha geração, incluindo eu.        

                                               João de Deus Rodrigues.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O NATAL!



O Natal devia ser o momento ideal,
Para todos meditarem, sobre:
- O Bem e o Mal;
A fé em Cristo e a oração;
A vida, aqui e no Além;
Os pobres, sem lar nem abrigo;
As crianças abandonadas, ao desdém;
Os idosos, sem terem ninguém;
As guerras, sem justificação nem castigo;
Os homens usurários, com ambição desmedida;
A sociedade de consumos desenfreados;
Os Cientistas anónimos, que nos melhoram a vida;
Os futebóis, alienantes e endeusados…

Esta meditação leva-me perto e longe.
Perto, aqui à minha porta,
Onde há gente nos supermercados, onde vai,
E sai de lá, quase morta, cai, não cai…

Longe, ao Iraque, onde duas explosões
Terroristas ceifaram a vida de muitos inocentes.
Ao Brasil, onde as inundações mataram mais de mil.
À Praça de São Pedro,
Onde o Papa Francisco, na Cúria Romana,
Apelou aos Homens, bons e sem medo,
Para denunciarem a mentira que nos engana.
E pediu-lhes, também, para meditarem
Naqueles que matam irmãos, teus e meus,
Evocando, em vão, o nome de Deus!

Oh!, meu Menino Jesus,
Vos que Viestes ao Mundo para nos salvar,
Abri o coração e Dai luz,
Àqueles que nos querem enganar.

Mesmo invocando -Te,
Nesta quadra de Natal.

     Dezembro de 2015

  João de Deus Rodrigues    

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Anjo e o Pastor






Levantou-se cedo o Anjo,
No monte encontra o pastor:
- Deus te guarde, homem de Deus!
- Venha na paz do Senhor!
Que o trás aqui, amigo,
Sem trazer cães nem cajado,
Tão cedo a falar comigo,
E nem ao longe vejo gado?
- Descia só a serrania,
Quando ao longe ouvi balidos…
- Ó homem de Deus,
Vir para estas paragens,
Onde são poucos os seres vivos...
Para além das minhas ovelhas,
E dos cães que aqui estão,
Só os lobos aparecem,
Para nossa consumição…
- Mas os lobos também são pais,
Com filhos para criar…
- Pois são, mas deviam comer erva,
Para não nos importunar…
- Mas com menos erva nos montes,
O que comia o teu gado?...
- Pois é, em tal não tinha pensado…
- Então, seja o Senhor louvado…
- E feita a Sua vontade...

Até sempre meu amigo,
No Céu tens lugar guardado.
Junto de todos os teus,
Que sempre guardaram gado.

 Livro:“ O clamor dos campos” -  Edições Colibri