sábado, 26 de dezembro de 2015

A PALAVRA



A palavra,
É uma criação
Que o homem fez,
Num momento de inspiração,
Num gesto de amor.
E criou uma criatura,
Com tanta força e poder,
Que pode matar o criador,
Mesmo sem ele querer.

Mesmo sem ele saber.

     BOM ANO 2016

       João de Deus Rodrigues

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Não gosto do Pai Natal...



Não gosto do pai natal.
Ponto final.

Mas não gosto do pai natal,
Por ele ser um cavalheiro barrigudo,
De barbas brancas, com um saco encarnado ao ombro,
Onde finge que leva brinquedos para dar às crianças.
Com aquele seu ar bonacheirão,
E o seu hou!…, hou!…, hou!…
Quando vem no trenó, puxado por renas mansas,
A escorregar na neve até parar em frente
De um supermercado, apinhado de gente,
Com uma campainha na mão,
A acenar para crianças inocentes,
Com um olho nos pais, babados e contentes,
Convidando-os a entrar para comprarem uma pistola
Ao rebento, com ar de mariola, ou um carro de combate,
Que trepa pelas paredes, aos tiros, e não há quem o mate…

Não. Não é por isso que eu não gosto do pai natal.
É sim, por que vejo nele o produto acabado
De uma sociedade consumista, tal e qual.
Uma sociedade que foi capaz de fazer esquecer o Presépio,
E o espírito, místico, do Natal.
Com o Deus Menino deitado na palhinha,
No meio de José e de Maria, junto da vaca e da burrinha,
Para nos provar que Nasceu para nos salvar.

Mas esse testemunho, transcendente e celestial,
Deixou de figurar nas montras iluminadas da cidade.
Onde outrora, velhos, novos e crianças, com saudade,
Paravam para ver o Deus Menino que veio ao Mundo,
Para nos trazer o Amor a Paz e a Felicidade.
E que agora anda tão esquecido, também por culpa da igreja,
Que deixou cair o Presépio, e isso não é coisa que se veja…
Por isso, espero um dia não entrar numa igreja paroquial
E ver no Presépio o Menino Jesus deitado, vestido de Pai Natal!...

Quem sabe se sozinho e triste, a pensar:
Ó minha Gente Amada, olhai para Mim!
E não Me deixeis aqui ficar, assim vestido,
Porque se não ainda Começo a chorar…

Natal de 2015 - João de Deus Rodrigues

O Natal na minha infância, e os rebuçados do céu…



 Passam os anos, ficam as recordações. E recordar é bom. Com que saudades recordo os Natais passados em casa dos meus avós maternos e na dos meus pais. O Natal era, por excelência, a festa da Família. Embora houvesse casas onde as iguarias abundavam mais do que noutras. Porém, em todas se comia polvo e cantava “o Menino”.
A noite de Natal em casa dos meus avós era, pelo número de pessoas à mesa, diferente da casa dos meus pais. Lá havia pais, filhos, netos e criados, todos sentados à mesma mesa, a cear. Ceia constituída por batatas, rábanos, couve troncha, bacalhau e polvo, de meia cura, cozidos ao lume, nos potes de ferro, e regados com azeite e acompanhados com vinho, que os homens bebiam… E depois a criada Merência levava para a mesa, nas travessas de loiça de Sacavém…
Contudo, antes de se dar início à ceia o meu avô Luciano dava Graças a Deus, e no fim comiam-se as filhós e as rabanadas. Em seguida, iam todos sentar-se à volta da lareira. Nos enormes escanos de madeira, escurecidos pelo fumo e pelos anos, e cantavam “o” Menino: “Chora, chora, meu Menino,/ que a mãezinha logo vem/ foi lavar os cueirinhos/ à fontinha de Belém!...”
Isto durava até de madrugada, mas eu, sentado no colo do meu avô, cedo adormecia, e a minha avó Merência levava-me à cama, e findava, para mim, a noite de Natal, sem brinquedos nem sapatinho na chaminé... 
Este ritual, de cantar canções de Natal à lareira, durava até ao dia 6 de Janeiro, dia de Reis. E, nessa noite, as canções já eram diferentes: “já os três reis são chegados/ à porta do Oriente/visitar o Deus Menino/ nosso Deus Omnipotente/”…
Era assim, que se passava a quadra natalícia na aldeia de Talhas, no século passado.

Mas as minhas recordações do Natal, a partir dos nove anos, em casa dos meus pais, são diferentes. Aqui, recordo-me de o meu pai ir ao “soto” do Choupina comprar o bacalhau e o polvo, de meia cura. Que chegava à aldeia dentro de cestos de cana, e tinha um cheiro desagradável, até que a minha mãe o passava por água e batia com ele numa pedra, para perder areia, e depois o cozia e ficava macio e saboroso...
O polvo, o congro e o bacalhau eram as principais iguarias que iam para a mesa, na ceia de Natal, acompanhadas com batatas, rábanos, couves tronchas, pão e vinho. E, no fim da ceia, comíamos polvo frito, passado por ovo, e rabanadas e filhós.
Rabanadas e filhós, que a minha mãe tinha feito durante o dia. Como me recordo, ainda, de a ver atarefada a amassá-las e a fritá-las em azeite, ao lume, e eu a pôr o açúcar por cima delas, enquanto comia a primeira…
Pelas vinte horas ceávamos à lareira, e depois cantávamos as mesmas canções que se cantavam em casa dos meus avós. À meia-noite íamos à missa do galo e a beijar o Menino, como se dizia. Chegados a casa, íamo-nos deitar.
Em Morais, a minha aldeia, também não havia prendas nem sapatos na chaminé, As únicas prendas que havia eram rebuçados para as crianças. Os chamados rebuçados do céu… Isto, até que os filhos não davam pela “marosca”. Os rebuçados compravam-se em Macedo, para serem diferentes dos que se vendiam no “soto” da aldeia, e os pais deixavam-nos ficar no quarto deles, depois da missa do Galo, e diziam-lhes que eram os rebuçados do céu, que o Menino Jesus lhes tinha trazido por se portarem bem… Eles, de manhã, encontravam-nos e iam a correr dar um ao pai e outro à mãe: tomem lá um rebuçado do céu! Eu portei-me bem, se não o Menino Jesus não mos tinha trazido…Isto durava até que os filhos apanhavam os pais no quarto, a deixar os rebuçados, e lhes diziam: “ó meu pai, então o senhor é que é o Menino Jesus!...” Os pais, embaraçados, diziam-lhes a verdade, e terminava assim o sonho mais lindo das crianças da minha geração, incluindo eu.        

                                               João de Deus Rodrigues.