segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Carnaval na minha infância - (memórias)



Foi antanho, é passado,
Mas a memória devolve tudo:
Uma mulher, a roca, o linho fiado,
Mas não se fiavam as barbas ao Entrudo!

Mão ágil, fósforo aceso, a estopa queimada.
Uma pedra que sai da mão,
E a cabeça rachada, ao carpinteiro João.

Uma mulher, as estopas a arder,
A ousadia, o drama, a agressão.
                                
Porque os homens da aldeia faziam tudo,
Para que não se fiassem as barbas ao Entrudo,
Para manter viva a tradição.

Enquanto na cozinha, à luz da candeia,
Quatro gerações junto à lareira,
Festejavam o carnaval, sem máscaras,
Essas coisas do demónio tentador.
Porque só eram permitidas brincadeiras
De deitar farinha na cabeça,
E contar “estórias”, não muito brejeiras…  

E toda aquela boa gente,
De cara descoberta, alegre e contente,
Passava a noite de carnaval,
Com uma estridente gargalhada,
Até ao clarear da madrugada...

Era assim o Carnaval na minha infância,
Em casa dos meus avós maternos,
A tão longa distância…
Onde não eram conhecidos corsos carnavalescos,
Nem desfiles de samba, com foliões pitorescos…


     Desejo a todos os meus amigos um BOM CARNAVAL 2016.

         João de Deus Rodrigues

domingo, 24 de janeiro de 2016

O Berço de um Néctar Divinal



É Outono,
E o vento abraça parras sem dono,
E leva-as com ele, bailando no ar,
Para as lançar ao mar.
Enquanto em baixo corre o Douro,
Serpenteado e bravio,
Ladeado de socalcos cor de ouro,
Com gente a vindimar ao desafio.

Gente rija e calejada como o rio,
Que os viu crescer junto do seu leito.
Gente que trabalha e canta ao desafio,
Velhas canções gravadas no seu peito.
Com vozes firmes e timbradas,
Que ecoam sobre o vale,
Para irem ao encontro das águas prateadas,
Que as embalam, docemente, até ao mar.
Que as recebe contente, porque conhece bem
O cheiro do mosto doce, quente e repisado,
Das uvas que o Douro tem.
Com o qual se faz um vinho divinal,
Que alegra o coração do mundo,
E a alma das gentes de Portugal.

Um néctar que os deuses saboreiam no céu,
Em dias de festa celestial.
Que é fruto do saber do homem,
E do calor do sol que o amadurece.
Com a ajuda do orvalho matinal,
E das belezas naturais que o rio lhe oferece.

in, Livro "Memórias e Divagações" - Poética Editora





Monólogo de Poetas no Chiado...



 Descia eu calmamente o Chiado,
Com gente alegre a passar a meu lado,
Quando ainda não havia artistas de rua a animar a cidade.
Apenas um músico, ainda moço,
Tocava blues, num saxofone sem idade,
E recolhia no chapéu as moedas que algum
Turista ia deixando ficar, para o seu almoço,
Enquanto ele piscava o olho às jovens de perna tatuada,
Que se encaminhavam para o Conservatório,
Com instrumentos musicais e a pauta alinhada,
Sem ligarem a um monólogo, de conversa pausada,
Que se desenrolava de poeta para poeta,
Sentados lado a lado, na esplanada ainda deserta...

Era um monólogo comovente!...
Dizia o poeta de ocasião, para o poeta residente,
Dando-lhe palmadinhas no ombro, como prova de lealdade:
- Sabes, Fernando, eu tenho o teu nome,
Também me chamo Fernando!...

E sabes mais?...
(Fez uma breve pausa, coçou a cabeça e disse:
Ó, não sei se te deva dizer isto assim, tão informal,
Porque tenho medo que me leves a mal...)

Mas o Fernando, poeta residente, sentado a seu lado,
Manteve a postura e continuou surdo e calado...

Então o Fernando, poeta de ocasião,
Como estava de alma aberta,
Não ligou ao companheiro e continuou:
Eu também sou Poeta!...

Houve nova pausa,
Fez-se silêncio no Largo do Chiado,
E o monólogo dos poetas parecia ter terminado…

Mas foi sol de pouca dura,
Porque o poeta, de alma aberta,
Depois de dar dois beijos à companheira “alberta”,
Virou-se novamente para o poeta residente e disparou:
E sabes outra coisa, Fernando, que ta digo eu!?...
Eu também faço isto, como fazias tu, por causa de uma mulher…
Ou quando o poema sai nu, porque a Musa assim o quer...

E confidenciou, ainda, ao poeta calado,
Suspirando a seu lado:
Sabes bem que nós, os poetas, somos assim, Fernando!
Vamos poetando…, poetando...
Hora a hora..., dia após dia...
Bebericando..., bebericando...
Até que chega a Musa, a saltar de alegria,
E nos dita a melhor poesia!...

Sabes bem que, ao fim e ao cabo,
É sempre assim...
Por isso, com esta me acabo.

Terminou aqui o monólogo, da conversa aberta,
Entre os dois poetas, sentados lado a lado.
Porque, dito isto, o poeta da alma aberta,
Tirou a mão de cima do poeta residente e levantou-se.
E sem olhar para ele, mas pleno de emoção,
Deu mais dois beijos à companheira, “alberta”,
E segurando-a com cuidado na mão,
Com ar de poeta pouco inspirado,
Desceu titubeante o movimentado Chiado...

E quando chegou ao fim da Rua Garrett, já longe,
Acenou ao poeta homónimo, sentado em frente da Brasileira,
Sem querer saber se ele era de barro ou de bronze,
Tal não era a brincadeira!...
 
    Chiado, Agosto de 2013

in, Livro "Memórias e Divagações" - Poética Editora