sábado, 9 de abril de 2016

No Alvor da Liberdade



  
Peguei nos meus filhos, pequeninos, pela mão,
Naquelas manhãs claras que o tempo libertava,
E caminhámos na esfuziante multidão,
Que comungando do mesmo ideal, lutava.

Não queria, tinha a mim mesmo prometido,
Que as estradas que se abriam ao nosso querer,
Jamais caminhassem num só sentido,
Ou alguém cativasse a Liberdade, acabada de nascer.

Por isso, eis que hoje, em Abril, rompe de novo,
Nas cidades dos poetas, gritando pelas avenidas,
Que é bom lembrar Camões e Goya ao Povo.
Para que a Memória esteja presente no futuro,
De todos os que queiram viver na cidade,
Para perpetuar nas avenidas, o grito Liberdade. 


  In: Livro "O Acordar das Emoções" - Tartaruga Editora 




domingo, 3 de abril de 2016

Meditação



Quando fores ao campo,
Conversa com as flores silvestres,
E admira a dança, delicada,
Duma abelha nelas pousada.

E atenta na melodia dum grilo,
A cantar seus louvores,
A esse jardim florido.
E ouve o silêncio do vento,
A beijar com delicadeza,
As dádivas da natureza.

Olha também o firmamento,
E escuta a voz do mar.
Mesmo que as ondas dancem longe,
Para lá do teu imaginar.

Mas escuta,
Escuta mais,
E cada vez mais fundo,
Até ouvires a voz do Mar.
No seu murmúrio profundo,
No silêncio do teu meditar.

In "Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora




As Flores do Campo - (À memória da minha mãe)



  
As flores do campo eram o teu encanto, o teu jardim. 
Delas me falavas, com ternura, assim:

- A flor da raposa é uma túlipa dos montes,
De cor púrpura e cheiro doce, de rara beleza,
Que nasce no sítio das Fontes.

- A flor da esteva tem as cinco chagas de Cristo,
Para lembrar ao homem isto:
Jesus foi crucificado,
Para remissão do teu pecado.

- As papoilas encarnadas ondulam ao sol primaveril,
E enchem de alegria os campos em Abril.

- As campainhas amarelas, aos lameiros de sequeiro,
Trá-las o sol de Fevereiro.

- As violetas, da margem do ribeiro,
São lindas pela cor e pelo cheiro.

- A giesta piorneira 
Matiza os campos, mas não cheira.

- O alecrim,
É o mais lindo para mim!

- O fiolho, é um amor,
Que cheira bem, mesmo sem flor.

- O tomilho é primo da arçã,
E tanto cheira à noitinha,
Como cheira pela manhã.

Eram estas as flores do teu encanto.
E em tua memória, eu gosto tanto!

In: "O Clamor dos Campos" -  Edições Colibri