segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O Poema que não quero escrever…



  
Se alguém ousasse escrever um poema,
Com palavras nunca ditas nem inventadas,
O que diria nesse poema?
Não sei. Nunca ninguém o escreveu,
Nem a tal se atreveu…

É verdade que nasce luz da utopia,
Mas eu pergunto o que se diria,
Num poema assim escrito…
Sim, que mensagens e sentimentos,
Que pensamentos e alegorias teria
Um poema sem imagens nem poesia?

Não sei. Eu não quero usar palavras
Sem carácter e sem mensagem e harmonia,
Para escrever um poema sem amor,
E sem beleza e fantasia...

Porque um poema só é poema,
Quando é escrito com amor,
Com raiva, e com alguma utopia…
Porque só assim é mais verdadeiro,
Só assim tem mais poesia.

  In Livro "Memórias e Divagações" - Poética Edições

As Palavras




É com palavras que se descreve,
Tudo aquilo que existe no mundo.
É com elas, que se declara a guerra
E proclama a paz, num segundo.

É com palavras que se agride o inocente,
E se dá voz de prisão ao agressor reincidente.
E se pede o pão,
E se diz sim ou não.

Palavras!
Códigos de letras,
De sílabas e de frases,
Com que se incita à guerra,
E se apela à paz.
Arquitectura de notas musicais,
Transformadas em sons celestiais,
Por homens imortais.
Símbolos gravados no bronze,
Em papiros, mausoléus e catedrais.
A harmonia com que se fazem orações,
Se compõem poemas de amor,
E se excitam corações...

Palavras:
Terna, é a palavra mãe.
Bela, é a palavra amor.
Doce, é a palavra flor.
Fina, é a palavra bem.
Feia, é a palavra eu.
Triste, é a palavra fome.
Horrível, é a palavra guerra.
Horrenda, é a palavra mentira.
Horripilante, é a palavra egoísmo.

E frases belas são estas, também,
No seu sublime esplendor:
Obrigado, minha querida mãe!
Hei de amar-te sempre, meu amor! 

   In: Livro " Memórias e Divagações" -  Poética Edições



terça-feira, 26 de julho de 2016

A Minha Avó Lucinda (*)



 Recordo-me tão bem de ti,
Avó Lucinda.
E te ver sorrir, já velhinha,
Quando eu, criança ainda,
Brincava com o meu pião,
No largo de S. Sebastião.

E tu, avó Lucinda,
Também sabias sorrir.
E quando o fazias,
Eras tão linda!

E o que é mais engraçado,
E me faz gostar tanto de ti,
É porque tu, além disso,
Pariste dezoito filhos,
Deitada num colchão de palha,
Num quarto sem tábuas,
Da tua humilde habitação,
Onde havia mais bocas do que pão.

E dar à luz dezoito filhos,
E criá-los com dedicação,
Eram muitos cadilhos,
Querida avó, do meu coração!

Mas era por isso que tu tinhas
Um sorriso de felicidade.
Que nascia no teu coração,
E eu te achava tão linda!
Minha querida avó Lucinda.

In Livro " Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora - * Poema revisto.