domingo, 3 de dezembro de 2017

O Natal da Minha Infância




Ah!, como era bela e natural,
A noite de Natal
Da minha infância.
Mesmo sem acalentar a esperança,
Que o Menino Jesus fosse à chaminé,
Para deixar brinquedos no meu sapatinho.
Porque, não havia chaminé,
Nem brinquedos,
Nem, muitas vezes,
Sapatinhos para pôr no pé.

Mas era o meu Natal de Amor,
E imaginário também.
Festejado junto de estábulos,
Como os de Belém,
Onde não faltavam animais,
Mansinhos e leais,
Nem pastores e Reis Magos,
Nas canções da minha mãe,
Que me cantava com afago,
Junto da lareira,
Onde o fogo crepitava,
E eu me sentia bem:

“ Olá, meu Menino/Como Tendes passado/
Só para Vos ver/Deixei o meu gado...”

Na presença da luz difusa de uma candeia,
E a escutar a cadência dos bailados
Dos farrapos de neve
Que caíam silenciosos nos telhados,
Como se fossem, tal qual,
Anjos vestidos de branco, como em Belém,
Embalados pelas canções de Natal,
Cantadas pela minha mãe.

  FELIZ NATAL - 2017 

            João de Deus Rodrigues            

In Livro” O Acordar das Emoções” – Tartaruga Editora


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Pão por Deus




       
Eram duas as crianças,
Como foram os filhos meus.
Bateram à minha porta,
Pediram o pão por Deus.

Traziam consigo outro pão,
Ao contrário de outros tantos.
E alimentavam uma chama,
No dia de Todos os Santos.

Numa época de descrença,
Neste mundo de aflitos,
É dos gestos das crianças,
Que brotam feitos bonitos.

Porque é sempre nas crianças,
Como foram os filhos meus,
Que habitam as esperanças,
Que haja sempre o pão de Deus.


  In Livro "Passagens e Afectos" - Tartaruga Editora
  



terça-feira, 8 de agosto de 2017

O meu gato e o meu cão




Lá em casa todos tínhamos nome,
Excepto o gato.
Esse era o gato, ou, quanto muito, o miau.
E como bom felino que era,
Não tinha cara de mau, não,
Embora se julgasse o patrão...

A ronronar, junto da lareira,
Se alguém o pisava,
Virava as unhas e arranhava...
Ou então,
Se eu lhe mostrava o sapato,
E lhe dizia: sape gato, seu mandrião!
Ele corria para a gateira,  
E ia para o palheiro,
A murar ratos, o dia inteiro.

Mas, valha a verdade,
Despesa também não dava.
Comer, só os ratos que caçava.
E ir ao veterinário?
Bom, como assim,
Se não havia médico para mim!

Já o meu cão, esse era outra loiça!
Era um perdigueiro, de dois narizes,
E íamos os dois à caça das perdizes...
E se por descuido eu o pisava,
Ele queixava-se, com a dor,
E triste olhava para mim, e assim ficava...
Até que eu, com carinho e amor,
Lhe fazia uma festa na cabeça,
E ele abanava o rabo de contente,
Ainda por cima,
E continuava a nossa estima...

Fomos, muitas vezes, cúmplices,
Quando íamos no encalço das perdizes.
Ele, com o vento nos narizes,
Sabia melhor do que eu onde elas estavam!
E disso, dava-me sinal:
Cabeça prá frente, bem esticada,
Pata no ar, levantada,
Nem tossia nem mugia.
Ficava tal e qual,
Até que eu lhe dizia:
Vai lá, Nero...
Então ele dava a esticada,
A perdiz levantava,
E, algumas vezes, caía...

E quando a perdiz caía,
Como ma entregava contente!
Então eu recebia-a,
Cuspia-lhe no nariz,
Fazia-lhe festas na cabeça,
E ele abanava o rabo,
E assim agradecia...

Finou-se com a idade, o meu Nero.
E no dia que ele morreu,
Primeiro chorou ele, 
E depois chorei eu.

In livro “ Memórias e Divagações” – Tartaruga Editora.