terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Apelo (a um cientista nuclear)



Homem do saber,
Lembra-te que hoje ainda não é tarde,
Mas amanhã já pode ser.

E cada vez mais finito.
Por isso, pára e observa a natureza,
E verás como o azul do céu é bonito!

Então, deixa o átomo em paz, e vê:
Homens, mulheres e crianças a sofrer.
Grávidas com o seu ser doente,
Flores e plantas a morrer. 

Até o ar,
Que não e teu,
Vais ferir de morte.
E os rios e as florestas terão igual sorte!

Tudo ficará cativo, sem nada poder fazer,
Se não fizeres bem o teu dever:
Deixar o Mundo viver em Paz,
E dares outro destino ao teu saber.

E só assim,
Em nome dos vindouros,
Todos te poderemos agradecer!

           Abril de 1985
        (dos jornais: experiência nuclear feita em segredo)

       In Livro: "O Clamor dos Campos" - Edições Colibri.

sábado, 13 de janeiro de 2018

O Medo




Confesso, Senhor, o meu receio,
Que sinto em certos momentos,
E me angustia e mete medo,
Aos sentidos e pensamentos.

O homem quererá ser louco,
Perder o amor que tem?
O que imagina não é pouco,
Ao meter-se na Obra do Além!

Construir um “homenzinho”
Num laboratório qualquer,
Sem sentimentos nem medo,
Fóra do ventre da mulher?

Ao capricho do seu querer,
Qualquer cor sem coração?
Sem ser homem ou mulher,
Que nunca dirá que não?

Sem ser Teu semelhante,
Não terá alma, nem sentimentos,
Nem medo, nem carinho ou amor,
Nem seja lá o que for!

São disto os meus receios,
Que em silêncio vejo passar.
E a minha ignorância pergunta:
Que quer o homem provar?

Que salva a humanidade?
E não a irá aniquilar?
Mas na minha fé espero
Que Tu não irás deixar.

        Lisboa/Maio de 1989 

     In Livro "O Clamor dos Campos" - Edições Colibri

domingo, 31 de dezembro de 2017

Dia de Reis - Memórias




Com que saudade recordo,
O dia seis de Janeiro,
Em casa dos meus avós maternos.
Quando eu adormecia ao colo do avô Luciano,
Sentado no velho escano de madeira,
Junto da lareira, a crepitar sons eternos.
E a avó Merência, com a sua sábia sapiência,
Nos narrava a viagem dos Reis Magos,
A caminho de Belém,
Para adorarem o Deus Menino,
E a Virgem Maria, Sua Mãe.
E depois, filhos, netos e criados,
Todos cantavam:

“Já os três Reis são chegados,
Às portas do oriente,
Visitar o Deus Menino,
Alto Deus omnipotente.

Foram a casa e Herodes,
Por ser o maior reinado,
Que lhes ensinasse o caminho,
Onde Deus era adorado.

Mas Herodes era malvado,
Perverso e assassino.
E aos Três Reis ele ensinou,
Às avessas o caminho.

Mas os três Reis eram santos,
E uma estrela os guiou.
Para trás de uma cabana,
A estrela de abaixou.

A cabana era pequena,
Não cabiam todos três,
Adoraram o Deus Menino
Cada um por sua vez”.

      João de Deus Rodrigues – Janeiro de 2018