sexta-feira, 5 de outubro de 2018

HOMENAGEM AOS PROFESSORES


A primeira aula


Já pairava no ar o cheiro a vinho mosto,
O dia solarengo, recordo-o bem.
De sacola ao ombro, sorriso no rosto,
Sou entregue ao Mestre pela minha mãe:

Senhor Calijão, faça favor.
Olá João, seu mariola,
Entra, e trás a sacola.

Mãe, o senhor sabe o meu nome,
E só me viu agora...

Voou o tempo, ao som da minha lousa,
Ao ritmo do lápis a gatafunhar.
E em frente ao velho portão, carcomido,
Saltitando desprendido, gritei:

Minha mãe,
Vem ver o que aprendi a fazer!
Mostra meu filho, deixa-me ver.
Oh!, que bonito, tu já sabes escrever.

E logo dois braços abertos,
De encontro ao meu coração.
E duas lágrimas rolaram,
Na minha primeira lição.

             João de Deus Rodrigues
In Livro “O clamor dos campos” – Edições  Colibri

domingo, 30 de setembro de 2018

No Cais Junto ao Rio



Aqui, junto ao Rio,
Ergue-se o Cais,
Por onde passou, gélido e frio,
O coração de mães e pais,
No último adeus menino,
Da minha geração.
Quando, entregue ao destino,
Partia no cumprimento da Missão.

Para mais à frente,
Além-mar,
Noutros Portos,
Em outros Cais,
Alguém lhe ordenar,
Com voz firme, obedecida:
- Em frente, marchar, marchar,
Até a Missão ser cumprida.

Quando para trás,
No alto mar,
Lançado em segredo,
Ficava sepultado o medo,
Da idade sem medo.

E mais à frente, no mato,
Pacífico e longo,
Se ouvir, entre picadas e o capim,
A lei das armas, a dançar com a morte,
Em Nambuangongo.

E depois, mais tarde,
A este Cais de partida,
Nem todos regressaram com vida,
Dessa ingrata missão.
A que uns disseram sim,
E outros disseram não.

In Livro: “ Memórias e Divagações” -  Poética Edições



terça-feira, 25 de setembro de 2018

O abandono (A porta)




            O abandono
              (A porta)



                                 
Começaste árvore, sombra, companhia.
Criaste frutos, ofereceste alimento.
Depois, morta, serrada e oprimida,
O artífice fez-te instrumento.

Polida, tiveste outra cor.
Testemunhaste sorrisos e dor,
Ouviste segredos de amor,
Serviste de guarida e prisão,
E agora, velha e apodrecida,
Jazeres, tombada no chão!
 
      (uma porta na minha aldeia)

João de Deus Rodrigues

In Livro " O Clamor dos Campos" - Colibri Edições.