sábado, 2 de maio de 2020

A Primeira Água que Bebi


A Primeira Água que Bebi


A primeira água que me deste a beber,
Minha Mãe, foi na concha da tua mão,
Tinha eu acabado de nascer.

E parece que te estou a ver,
A segurares-me, maternalmente,
Nas palmas das tuas mãos de luz,
Quando emergi do primeiro banho,
No teu quarto caiado de branco,
No dia que me deste à luz.

E foi nesse banho,
Minha Mãe, que tu, então,
Levaste na concha da tua mão,
Finas gotas de água cristalina
Aos meus lábios, e disseste:
Bebe, meu filho, a água que temperaste,
Para que ninguém te moleste.

E eu bebi uma gota dessa água sem sal,
E aconchegaste-me na toalha de linho,
Estendida no teu regaço maternal,
E enxugaste o meu corpinho, frágil e fino,
E levaste-me ao peito, generoso e anafado,
Para que mamasse o teu leite abençoado.

(Eu sei que foi assim, minha Mãe,
Porque está no meu coração gravado.)

Mas depois eu cresci,
Minha Mãe, e parti.
Mas o meu coração cresceu também,
Para tu caberes nele, sempre igual,
A esse dia primordial,
Que me destes a beber essa água, 
Na concha da tua mão.
E deixei-te ficar sozinha,
Por não te poder levar comigo, minha Mãe.

E, por isso, Mãe, é grande a minha mágoa.
E continua triste o meu coração!


      João de Deus Rodrigues

Publicado no Livro “ O acordar das Emoções” – Editora Tartaruga.

                  


2 comentários:

  1. Um poema de terna e saudosa emoção.
    Fiquei com curiosidade em conhecer as telas de cariz rural e que fala.
    Porque não as revela no blog?
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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  2. Bons poemas João de Deus, poeta transmontano.
    Abraço,
    JG80

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